Em “Chico Mendes – Crime e Castigo”, Zuenir Ventura faz jus às causas do líder seringueiro assassinado enquanto mostra ao leitor as etapas de uma premiada reportagem investigativa
Em 1866, era publicada uma das mais importantes obras da literatura mundial: ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Mikháilovitch Dostoiésvski, personificando o sentimento da angústia. Mais de um século depois, Zuenir Ventura parafrasearia o famoso escritor russo com maestria. Não só o título de “Chico Mendes – Crime e Castigo” nos remete ao assassinato e a punição dos assassinos do maior líder sindical e ambientalista da Amazônia, como ao sentimento do povo de Xapurí, cidade de Chico Mendes, reprimido diante do poder dos grandes fazendeiros.
Chico Mendes foi morto no dia 22 de dezembro de 1988, cumprindo o que era professado por ele próprio, que dizia que não sobreviveria até o dia 30 daquele mês. Zuenir Ventura escolheu o assassinato como ponto de partida da primeira parte de seu livro-reportagem, intitulada “O Crime”. As outras duas partes que completam a obra são, respectivamente, “O Castigo”, relatando a segunda visita do jornalista ao Acre, em dezembro de 1990, época do julgamento dos criminosos, e “Quinze Anos Depois”, fruto da terceira viagem, realizada em outubro de 2003.
O livro não é uma biografia de Chico Mendes, é muito mais que isso. Ventura se coloca no cotidiano dos conterrâneos do líder morto para entender o que aquela perda significava no contexto das lutas pela preservação da Amazônia e da vida de Xapurí. Por meio de depoimentos de amigos, familiares, autoridades e até inimigos de Chico Mendes, o jornalista, que viajara ao Acre para começar a escrever sua reportagem passados pouco mais de dois meses do crime, mostra como os ideais do líder sindical encontravam-se intrínsecos àquele povo, povo este que representava as lacunas que não haviam tido tempo de serem preenchidas pelo ambientalista assassinado e, ao mesmo tempo, suas conquistas.
A morte de Chico Mendes foi tratada com sabedoria por Ventura em sua reportagem. Passando Mendes à condição de personagem secundário em algumas partes do livro, o jornalista, ao optar por uma abordagem em primeira-pessoa, nos faz presenciar os reais problemas enfrentados pelos seringueiros, agora carentes de seu maior representante. Colocando-nos frente a frente com as situações contra as quais lutava Chico Mendes, Zuenir Ventura consegue conscientizar seus leitores sobre os problemas apontados pelo líder seringueiro enquanto vivo, prestando um serviço muito maior às causas e à memória deste do que se fizesse um simples relato de como havia sido a vida do mártir.
Além disso, “Chico Mendes – Crime e Castigo”, reportagem que rendeu a Zuenir Ventura vários prêmios, entre eles o Esso de Jornalismo, é um manual de como se fazer uma boa reportagem investigativa. Ao inserir-nos na realidade daquela cidadezinha do interior do Acre, Ventura nos faz presenciar cada etapa da investigação pelo ângulo de sua profissão, mostrando que as possibilidades de desdobramento de uma história são inúmeras e que um jornalista tem que enxergar nas adversidades a possibilidade de se criar uma reportagem ainda melhor que a pensada inicialmente. Inclusive as adversidades físicas podem ser levadas em conta, como os mosquitos que muitas vezes incomodaram o autor e que, devido à riqueza de detalhes utilizados por ele em suas descrições, chegam a incomodar até o leitor.
Escrito por Evandro Pimentel 
Escrito por Evandro Pimentel
Tudo está pronto para o anúncio da candidatura à reeleição do republicano Richard Nixon ao cargo de presidente dos Estados Unidos. No meio tempo, a sede do Comitê Nacional Democrata, no edifício Watergate, é assaltada na calada da noite. O que inicialmente parecia um incidente isolado começa a ganhar proporções federais quando Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do jornal Washington Post, se aprofundam na investigação do caso.
Escrito por Evandro Pimentel