Investigação à flor da pele

01.12.2008

Em “Chico Mendes – Crime e Castigo”, Zuenir Ventura faz jus às causas do líder seringueiro assassinado enquanto mostra ao leitor as etapas de uma premiada reportagem investigativa

Chico MendesEm 1866, era publicada uma das mais importantes obras da literatura mundial: ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Mikháilovitch Dostoiésvski, personificando o sentimento da angústia. Mais de um século depois, Zuenir Ventura parafrasearia o famoso escritor russo com maestria. Não só o título de “Chico Mendes – Crime e Castigo” nos remete ao assassinato e a punição dos assassinos do maior líder sindical e ambientalista da Amazônia, como ao sentimento do povo de Xapurí, cidade de Chico Mendes, reprimido diante do poder dos grandes fazendeiros.

Chico Mendes foi morto no dia 22 de dezembro de 1988, cumprindo o que era professado por ele próprio, que dizia que não sobreviveria até o dia 30 daquele mês. Zuenir Ventura escolheu o assassinato como ponto de partida da primeira parte de seu livro-reportagem, intitulada “O Crime”. As outras duas partes que completam a obra são, respectivamente, “O Castigo”, relatando a segunda visita do jornalista ao Acre, em dezembro de 1990, época do julgamento dos criminosos, e “Quinze Anos Depois”, fruto da terceira viagem, realizada em outubro de 2003.

O livro não é uma biografia de Chico Mendes, é muito mais que isso. Ventura se coloca no cotidiano dos conterrâneos do líder morto para entender o que aquela perda significava no contexto das lutas pela preservação da Amazônia e da vida de Xapurí. Por meio de depoimentos de amigos, familiares, autoridades e até inimigos de Chico Mendes, o jornalista, que viajara ao Acre para começar a escrever sua reportagem passados pouco mais de dois meses do crime, mostra como os ideais do líder sindical encontravam-se intrínsecos àquele povo, povo este que representava as lacunas que não haviam tido tempo de serem preenchidas pelo ambientalista assassinado e, ao mesmo tempo, suas conquistas.

A morte de Chico Mendes foi tratada com sabedoria por Ventura em sua reportagem. Passando Mendes à condição de personagem secundário em algumas partes do livro, o jornalista, ao optar por uma abordagem em primeira-pessoa, nos faz presenciar os reais problemas enfrentados pelos seringueiros, agora carentes de seu maior representante. Colocando-nos frente a frente com as situações contra as quais lutava Chico Mendes, Zuenir Ventura consegue conscientizar seus leitores sobre os problemas apontados pelo líder seringueiro enquanto vivo, prestando um serviço muito maior às causas e à memória deste do que se fizesse um simples relato de como havia sido a vida do mártir.

Além disso, “Chico Mendes – Crime e Castigo”, reportagem que rendeu a Zuenir Ventura vários prêmios, entre eles o Esso de Jornalismo, é um manual de como se fazer uma boa reportagem investigativa. Ao inserir-nos na realidade daquela cidadezinha do interior do Acre, Ventura nos faz presenciar cada etapa da investigação pelo ângulo de sua profissão, mostrando que as possibilidades de desdobramento de uma história são inúmeras e que um jornalista tem que enxergar nas adversidades a possibilidade de se criar uma reportagem ainda melhor que a pensada inicialmente. Inclusive as adversidades físicas podem ser levadas em conta, como os mosquitos que muitas vezes incomodaram o autor e que, devido à riqueza de detalhes utilizados por ele em suas descrições, chegam a incomodar até o leitor.


Fale Com Ela

28.08.2007

[resenha para revista]

Benigno e Marco são dois desconhecidos cujos destinos são ligados pelas tragédias que se abatem sobre suas amadas. Enquanto o primeiro vive intensamente a peculiar relação que estabeleceu com a dançarina em estado vegetativo de quem é enfermeiro e que mal conhecia, mas que considera o amor de sua vida, o segundo sequer consegue tocar na namorada em coma. Um conselho de Benigno então faz diferença: fale com ela. Reviravoltas em meio à essa crescente amizade nos levam a mais um dos finais surpreendentes característicos da obra de Pedro Almodóvar.


Todos os Ângulos do Jornalismo

05.06.2007

Em Todos os Homens do Presidente, o diretor Alan J. Pakula (Inimigo Íntimo) nos transporta com maestria para os bastidores do jornalismo investigativo norte-americano durante um dos maiores escândalos políticos que abalaram os EUA.

http://thecinemaniaco.files.wordpress.com/2009/01/all-the-presidents-men-dvd-cover.jpg?w=101&h=132Tudo está pronto para o anúncio da candidatura à reeleição do republicano Richard Nixon ao cargo de presidente dos Estados Unidos. No meio tempo, a sede do Comitê Nacional Democrata, no edifício Watergate, é assaltada na calada da noite. O que inicialmente parecia um incidente isolado começa a ganhar proporções federais quando Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do jornal Washington Post, se aprofundam na investigação do caso.

É nesse contexto que Todos os Homens do Presidente está inserido. Baseado na obra homônima de Woodward e Bernstein, interpretados na produção por Robert Redford (Um Lugar para Recomeçar) e Dustin Hoffman (Perfume: A História de Um Assassino), respectivamente, o roteiro adaptado de William Goldman, premiado com o Oscar da categoria, mostra com competência como funcionam as relações de poder dentro da redação de um periódico, mas peca ao exacerbar o heroísmo dos repórteres citados. Apesar disso, sua concisão é notável, pois consegue não confundir o espectador, que nem por isso deixa de estar inserido no contexto de um complexo trabalho jornalístico.

A película não esconde sua intenção em evidenciar a força das palavras na sociedade contemporânea. Prova disso são as cenas em que o bater das teclas da máquina de escrever faz um barulho ensurdecedor. A opção escolhida pelo diretor Alan J. Pakula para salientar esse efeito foi mesclar o som da própria máquina com o de tiros, com o propósito de traçar um paralelo entre o combate à impunidade através do uso de armas e através do jornalismo.

Todos os Homens do Presidente expõe, através do personagem Ben Bradlee, interpretado por Jason Robards (Magnólia), como deve funcionar a redação de uma publicação noticiosa competente. Bradlee, um editor-chefe exigente, mas que em vários momentos, devido à transformação cegante dos dois protagonistas em heróis, é visto como inconveniente, dá grandes lições de responsabilidade jornalística em tempos em que um “furo” é disputado a unhas e dentes.

Exageros à parte, as interpretações convincentes de Redford e Hoffman ilustram bem até onde a ousadia de repórteres pode (ou deve) chegar para que uma matéria não deixe pontas soltas. Fica explicitada então a importância do “chefe chato”, que exige dos dois jornalistas uma apuração que vá além de “achismos” e respostas aparentemente convincentes.

Apesar de filmada na década de 70, a fita é atual e ainda inspira por mostrar periodistas apaixonados por seus trabalhos, o que resulta, além de reconhecimento profissional (na vida real, Woodward e Bernstein ganharam prêmios por seus trabalhos no caso Watergate), em um serviço de valor inestimável para toda a sociedade. E é sempre bom lembrá-la disso.

Ficha Técnica
Título Original: All The President’s Men
Direção: Alan J. Pakula
País /Ano de Produção: EUA, 1976
Elenco: Robert Redford (Bob Woodward), Dustin Hoffman (Carl Bernstein), Jason Robards (Ben Bradlee), Jack Warden (Harry M. Rosenfeld)